PITANGA do AMPARO - au magazine 86 june - text
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samba pós-exaltação

.....Pressão na barriga. É o sinal! Subo rapidamente pela econômica escadinha circular de 1,20 m de diâmetro. Apanho o telefone e o planeta diário. Alcanço o vaso e finalmente relaxo a tranquila satisfação de ter conseguido fazer tudo a tempo.
.....Mongol o débil mental, Cuecão, Perry White, o ldiotinha e eu gargalhamos em uníssono. A vida momentaneamente é um imenso refogado. Abobrinhas, besteirol, risos frouxos, peidos idem... Será a harmonia?
.....Trrriiiimmmmm!!!!! Alô! Sim é o Pitanga! Ouem é? Oh Wolf tudo bem? Cê qué saber do artigo, né... Posso te ligar daqui a cinco minutos? OK, até já...
.....E agora? Oito laudas para segunda-feira e o tema é mais amplo que "0 Sentido da Vida".
.....Refeito do pânico inicial, ligo e combinamos de almoçar juntos após algumas informações sobre a importância do número em questão.
.....Fico de apanhar o Wolf em seu habitat, no caso o centrão
.....A "boca do lixo" no sábado, apesar da claridade do dia, tem um clima denso o bastante para se pressentir a possibilidade de um assalto.
.....Tipos de cartoon underground pra Lou Reed nenhum botar defeito. Fazendo a linha traficante, telefono do orelhão para avisar que já cheguei e espero mais um pouco enquanto escuto um duo de surdão e tamborim que emana do boteco ao lado: Scuudum, Scundum, Taratata, Taratata... Oi Pitanga! tudo bem? pode deixar o carro aí mesmo. (0 carro tem seguro total; penso e me tranquilizo).
.....No caminho até a entrada do prédio não resisto à dicotomia aparente homem/meio ou seja Wolf-"boca do lixo" e concluo dizendo que para conseguir morar naquela quebrada só sendo absolutamente louco.
.....Desfeitas as impressões iniciais, que poderiam pressupor uma perplexidade tipo yuppie apavorado, descubro o jornalista-repórter, o raposa do deserto, que precisa estar envolto no pulsar da megalópole.
.....Take a walk on the wild side...
.....0 vinho branco no espaço acolhedor do apartamento convida à reflexão. A Festa. A Bahia. A origem. 0 pelourinho. Uma entrevista com um jovem intelectual baiano chamado Antonio Risério. Um disco de um tal de Caldas. Uma reportagem com os moradores do pelourinho com uma batucada e cantoria sempre presentes. Fala-se da proposta mal entendida do Peter Cook de preservar só a fachada do pelourinho e os depoimentos da população nos levam a crer que talvez exista algo vital por detrás dessas fachadas que precisa ser traduzido em linguagem de branco. E me ocorre que o urbanismo geralmente tende a desprezar nuances antropológicas erradicando as esquinas, os botecos, as quebradas, as manifestações mais espontâneas e eu me vejo novamente andando na rua, na "boca do lixo" em paz com a diversidade mas preocupado com o meu relógio de ouro.
.....Me ocorre outra visão: 0 urbanismo é coisa de branco!
.....Como conciliar uma vida mais digna com trabalho e oportunidade para todos com os requebros e manemolência do neguinho boca-mole que insiste em exaltar as belezas naturais e alertar para os perigos de uma vida sem quiabo nem giló?
.....Opinião dominante dos entrevistados: 0 tal do Bob Marley coisa e tal e graças ao Gilberto Gil que nós fiquemo sabêno; mais eles num são importante pra mim não e eu quero ver a alegria de um dia na vida da esperança dessa mudança toda que é a esperança da vida e dessa alegria toda da gente... Plim! Plim!
.....E com a palavra Antonio Risério em tom profético discursivo glauberiano vai pontificando aqui e ali o prenúncio de um ressurgimento de toda a catarse místico-poética que teve início lá mesmo na Bahia em que Gregório de Mattos Bezerra, Aureliano Neves da Costa, o grande Nepomuceno Cavalcanti, e como deixar de citar os prolegômenos de uma visão abrangente do negro do pelourinho e do escravo que teve sua liberdade garantida por um acordo de ingleses, mas isso fez José do Patrocínio chorar e mesmo Glauber Rocha que resgatou a miséria de um contexto específico e por que não lembrar da importância de:

GILBERTO GIL & CAETANO VELOSO

.....Aqqquuueeeeeellee AAbbrraaaaaaaaaaaçççooo !!!!! .......
.....E voltando à civilização dos anos 60, o Rio é então lembrado e cogita-se da possibilidade de um ressurgimento desse pique.
.....Talvez ainda a coisa esteja ocorrendo timidamente pois tem a cara do regime.
.....É porque o Rio àquela época era o centro nervoso cultural, estético, político e econômico do país e para onde convergia toda a inteligência e de onde se podia irradiar com repercussões até internacionais toda manifestação criativa. Veja a Bossa Nova, o Cinema Novo, as artes plásticas e arquitetura em plena efervescência.
.....E a Bossa Nova foi o último momento realmente criativo da música brasileira em que se podiam detectar elementos eruditos da nossa música (Villa Lobos entre outros) a harmonia jazzística e o ritmo da música negra (a batucada na mão esquerda do piano do Jobim).
.....Com o golpe, silencia a música e tem lugar a palavra ou poesia via Tropicalismo que se utiliza do rock para dar o seu recado e nas mãos dos baianos deslumbrados com o sul-maravilha vão se diluindo os valores de um momento em que os músicos no mundo todo eram obrigados a nos imitar se quisessem estar atualizados.
Já o caipirismo-oportunista-imitativo foi se "atualizando" de: música de arrasta-peixe, pra Jovem Guarda, pra rock de bandolim elétrico, pra minimalismo intimista tipo "Um coco na areia, dois coco no quintal", pra reggae "Mim qué tocá".
.....E o espetáculo mais deprimente que reflete o atual subdesenvolvimento estético fica por conta da entrevista Mick Jagger/Caetanim na qual, enquanto o Mick Jagger dizia: nós, você e eu, somos talvez etc. e tal; o outro se revelava idólatra, assumindo uma inferioridade terceiro-mundista típica de mentalidade regionalista, bairrista, competitiva de nível futebolístico.
.....Absolutamente diverso para quem se lembra, há muitos anos atrás, foi o encontro dos deuses Jobim e Sinatra o que por si explica tudo.
.....E com um desfecho místico, na tentativa de exorcizar as mentiras teórico-exaltativas perpetradas pelos puxa-saco e diluidores de plantão, aí vai um sambinha, ou melhor um partido alto, bem alto, talvez com uma bandeirola no topo e que pode também ser levado em ritmo de rock na versão para guitarra elétrica de Frank Guery and his Space Makers ou de blues no estilo Memphis.


Pitanga do Amparo
, arquiteto pela FAUUSP, 1973, é professor de Projeto na Mackenzie
10/05/1986


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